Passadas apenas duas rodadas incompletas, uma certeza incômoda começa a florescer dos campos sul-africanos: a Copa 2010, a Copa da África do Sul, a primeira Copa disputada em solo africano não parece ter sido feita para africanos. Não se vê aqui o fenômeno ocorrido em 2002, quando alavancada pelo grito de sua torcida, a Coréia do Sul se viu disputando uma semifinal de Copa diante da gigante Alemanha. O incomodante som das vuvuzelas não tem causado o efeito que os nativos daquela terra tanto esperavam para o sucesso dos filhos da terra.
Sim, ainda faltam muitos jogos a serem disputados. Porém, de um total de 18 envolvendo as 6 seleções africanas classificadas para esta Copa (nenhum confronto direto), 8 já foram disputados. O resultado? Apenas uma única e magra vitória, um único empate sem gols e seis derrotas, tanto para sul-americanos quanto para europeus e asiáticos. Mais do que isso, as seleções da África do Sul e da Nigéria se vêem no momento praticamente eliminadas da disputa, dependendo de uma combinação de resultados para sobreviver. E se Gana, a única a vencer até aqui, e Costa do Marfim ainda têm possibilidades reais de alcançar as oitavas de final, o mesmo não se pode dizer de Argélia e Camarões, ambas derrotadas na estréia pelas inexpressivas seleções eslovena e japonesa, respectivamente. É muito pouco para um continente que já foi apontado por muitos como portador de um futuro vencedor de Copa, mesmo antes da virada do ano 2000.
Camarões foi o primeiro representante africano a causar certa surpresa no mundo do futebol quando em 1982 por muito pouco não eliminou a Itália, futura campeã daquela Copa disputada na Espanha. Oito anos mais tarde, os campo italianos testemunharam a escalada dos leões indomáveis (como são chamados os camaroneses) rumo as quartas de final da Copa de 90, deixando para trás seleções do porte da Argentina (que ostentava o título de campeão) e da Romênia. A derrota para os ingleses, os inventores do futebol, só ocorrida na prorrogação, deixou os imprevisíveis (as vezes irresponsáveis) camaroneses entre as oito melhores seleções do planeta, um feito jamais alcançado por qualquer outra seleção do continente até os dias de hoje.
A Copa seguinte disputada em 1994 nos Estados Unidos não viu um novo rugido dos leões, já não tão indomáveis. Mas uma emergente potência representada pela estreante Nigéria, aliando um futebol de força com uma banca só ostentada por grandes campeões, emergia em solo norte americano. Porém, a tal soberba impediu que um futebol responsável surgisse, e a Nigéria acabou eliminada pela velha raposa italiana, quando tudo já parecia perdido para os europeus.
Os resultados apresentados até então pelos emergentes africanos afiaram a língua dos profetas de plantão que se apressaram em apontar a África como provável detentora de um título mundial antes mesmo do ano 2000, algo que só poderia ocorrer na Copa do Mundo da França em 1998. Com novo formato, contando com 32 seleções e não mais com 24, 5 vagas foram destinadas à representantes africanos, um grande salto se considerado que em 1990 eram apenas 2 e em 1994 eram 3. Porém, as profecias fracassaram e, mais uma vez o maior expoente africano (a Nigéria), portador de grande técnica e irresponsabilidade, ficou nas oitavas de final ao perder para a Dinamarca (e para si mesmo) por implacáveis 4 x 1.
A primeira década do século 21 trouxe muito pouco dos africanos, principalmente se levado em consideração o que se esperava deles. Nas Copas de 2002 e 2006, o quadro não se alterou. Se em categorias de base e em jogos olímpicos, os irreverentes africanos já estavam alcançando resultados expressivos, inclusive títulos em larga escala, o mesmo não se realizava nos principais torneios profissionais de futebol. Com jogadores consagrados e vitoriosos abastecendo inclusive grandes seleções européias, como explicar o fracasso quando se trata das seleções do próprio continente?
De certo, apenas que a Copa da África não marcará apenas a primeira edição do torneio que se realizou em terreno africano. Esta também deve ser a primeira Copa a ter um anfitrião eliminado na primeira fase. Dependendo de uma vitória sobre os decadentes franceses e de um vencedor no confronto entre Uruguai e México (o empate classifica os dois países), resta aos sul-africanos afiar seu poder de persuasão e convencer os mexicanos que jogar para vencer o Uruguai (retirando deste o primeiro lugar do grupo) é mais que uma opção: é uma necessidade de sobrevivência. Afinal o segundo lugar no grupo leva a um confronto nas oitavas contra a poderosa Argentina, enquanto que o primeiro lugar no grupo leva para um confronto bem menos espinhoso contra os irregulares gregos, coreanos ou até mesmo (ainda que improvável) nigerianos, o que, convenhamos, é muito melhor.
É claro que o milagre sul-africano não seria assim tão 'fácil'. A saga depende ainda que diante dos franceses, o comandante Parreira, recordista de participações em Copas como treinador, ainda quebre seu jejum pessoal de vitórias no comando de seleções diferentes da brasileira. Já se passaram quatro Copas e... nada. Seria um novo recorde do comandante do tetra?
Haja reza forte e vuvuzela!