E o país do futebol se prepara para um novo momento de glória. A Copa do Mundo está chegando e o Brasil, mais favorito do que nunca, é o time a ser batido pelos outros 31 concorrentes. Na teoria, pouca coisa separa o Brasil de sua sexta conquista, o hexacampeonato. Na prática, ainda falta muita coisa, pois, como se diz na gíria, “o futebol é uma caixinha de surpresas”. Há outras seleções que podem bater o Brasil, e confesso que temo principalmente a Argentina, nosso eterno arquirival. De qualquer forma, esta é uma época em que o país se modifica, se une, se esquece de tudo que acontece ao redor para se focar apenas no que interessa: a Copa do Mundo. É aí que eu, contra a maré, me pergunto: qual é a graça?
Antes que alguém pergunte, eu aviso: adoro futebol. Entretanto confesso que, desde 1994, a Copa do Mundo já não tem a mesma emoção para mim. Passei toda minha infância e adolescência diante da televisão, ávido pela passagem dos quatro anos que separam uma Copa da outra. A cada uma, a esperança se renovava. Passaram-se as Copas de 82, 86 e 90, até chegar a da já citada Copa de 94. Passei 12 anos esperando o tetra, enquanto outros esperaram 24 anos. É um tempo enorme, período que o país tinha reconhecido seu imenso arsenal de talentos, mas que não traduzia este talento em títulos. Além da ânsia e da angústia de se chegar ao tetra, havia também o desespero de ser ultrapassado por outra seleção. A Itália se tornou tri, assim como a Alemanha. A Argentina chegou ao bi e tinha Maradona. Torci muita pela Alemanha entre 86 e 90. Melhor a Alemanha tetra do que a Argentina tri.
Mas chegou 94, e com ele o tetracampeonato. A partir de então o Brasil finalmente passou a traduzir seu indiscutível talento em números. Ao tetra, seguiu-se uma final de Copa em 98 e o penta em 2002. No ranking da FIFA o Brasil se mantém em primeiro há anos. A Copa América, a Copa das Confederações e outros tantos torneios passaram a ser títulos rotineiros – não vamos considerar a incompreensível falta de títulos olímpicos. Os clubes brasileiros passaram a ganhar com maior freqüência o Mundial de Clubes. Passamos a exportar talentos para outros países, até mesmo para a anteriormente inimaginável seleção alemã. O Brasil tornou-se a Meca do futebol, e a rotina, a supremacia, a frequência tornou-nos o nirvana, o objetivo. Somos uma espécie de “Dream Team”. Esse peso tornou a disputa, paradoxalmente, sem graça. Perceba, com o nosso crescimento, aliado ao enfraquecimento de outros rivais (como a Alemanha), perdeu a graça torcer pelo Brasil. Provavelmente ganharemos. A vitória de 94 fez ecoar o grito contido por tanto tempo, mas 2002 já não havia a mesma ânsia, angústia, desejo. Podem-se passar oito anos e, no máximo, seremos alcançados em número de títulos, mesmo assim, só se for Alemanha (duvido muito) ou Itália. Disputa mesmo pela supremacia, no mínimo, só a partir da Copa de 2014.
Os anos que se passaram após a Copa de 94 só ratificaram minha certeza a respeito da graça de uma Copa do Mundo, ou qualquer torneio entre seleções. Nossa superioridade, ou supremacia, tanto desejada, fez com que o interesse se perdesse. Sei que muitos vão rugir contra, mas em 94 havia uma ansiedade reprimida, e cada nova vitória parecia um imenso saco de pedras a menos em nossas costas. Passei a assistir os jogos por obrigação patriótica. Final de Copa América contra a... Bolívia? Final de Copa das Confederações (hein?!) contra o... México? Evidente que tivemos derrotas até humilhantes, como para Honduras, o próprio México, Coréia do Sul. Mas sempre havia um porém. Na hora H ainda éramos superiores. Meu ânimo seguiu declinando, até que o Brasil chegou a uma final de Copa América contra a... Argentina.
Time reserva, torneio sem muito brilho, achei que chegar a final já tinha sido o bastante. Já estava recheado de boas desculpas para o vice, ainda que soubesse que qualquer derrota para a Argentina seria sempre dolorosa. A bola rola e o jogo segue parelho. No final da partida, Renato falha e a Argentina pula na frente. Me desespero em frente a televisão, nem me lembrando mais que o time era o reserva, o torneio era a Copa América e que eu já nem me envolvia com um jogo assim desde a Copa de 94. Naquele momento, comecei a me lembrar das desculpas para a derrota. O tempo passou mais um pouco e Adriano, que eu não considerava lá essas coisas (achava que o pessoal do Inter de Milão era maluco por contratá-lo), empata a partida nos descontos (e com estilo). Um grito ecoou nos arredores da minha casa, unindo a minha voz a de milhares de brasileiros. Eureca! Descobri a fórmula para o retorno da magia de um torneio entre seleções! A vitória nos pênaltis só ratificou este sentimento de imensa alegria.
A derrota dos hermanos na Copa 2002 (apesar do grande favoritismo) e a goleada na final da Copa das Confederações só me deram a certeza de que a graça dos torneios entre seleções reside na presença da Argentina. A partir desta data, passei a torcer para que a final de qualquer torneio seja entre eles e nós. A graça voltou, evidentemente desde que o Brasil se mantenha ganhando. Talvez isto perdure até que o Brasil passe por um novo período de jejum, mas por enquanto, eu quero é mais a Argentina. Não que a eliminação precoce seja desprezível, mas nirvana mesmo é derrotar os argentinos em uma final. Os lamentos em ritmo de tango, as discussões entre Maradona e Pelé... Não há dúvidas. Só a Argentina salva. O maior desafio do futebol mundial. Esse eu acredito que o tempo, mesmo diante da supremacia de um sobre o outro, não fará o encanto desaparecer. Vida eterna para os hermanos!! Chores por mim Argentina!!
Silvio Machado