Sou carioca de bom senso, logo torço pelo Flamengo. Mas isso não me torna unidimensional, isto é, alguém que ignora e torce contra os outros clubes do Rio de Janeiro. Sempre que possível, lá estou eu torcendo pelo sucesso de América, Bangu, Botafogo, Fluminense, Vas... bom, Vasco já é um caso a parte...
Mas, tudo bem, vamos deixar o Vasco de lado por hoje, já que meu "segundo time" – tem quem odeie ter seu time como segundo de outro - no Rio de Janeiro é o Botafogo, o Fogão. Tenho simpatia pelo Botafogo. Porém, confesso: jamais poderia ser um botafoguense típico, pois todo botafoguense típico possui características próprias que impedem o acesso de qualquer um ao seleto grupo de torcedores do time de Garrincha. Pensando bem, talvez sejam esses "pré-requisitos" os grandes responsáveis pela torcida pouca volumosa do Glorioso (calma galera do Fogão, é só brincadeira).
Pois nos meus tempos de garoto, um chamado "botafoguense típico" era aquele ser supersticioso e pessimista ao extremo. Querem um exemplo? Certa vez fui convidado por um grande amigo para acompanhar com ele os jogos do Fogão. O primeiro jogo era um Botafogo x Vasco no Maracanã. O time da "Estrela Solitária" encurralou o Vasco, mandou bola na trave e viu o melhor zagueiro do Vasco na ocasião ser expulso do jogo. Logo depois, pênalti para o Glorioso, estava tudo muito bom. Enquanto o jogador se preparava para bater, percebi um torcedor com cara de desespero se virar de costas para o campo de jogo. Curioso, interpelei o torcedor:
_ Amigo, não vai assistir não?
_ Ele vai perder. Eu sei que vai. O Botafogo nunca dá sorte contra o Vasco. – decretou o cético torcedor.
Virei-me para o campo ainda a tempo de acompanhar a bola explodir na trave. Ainda incrédulo com a oportunidade perdida pelo Botafogo ouvi o mesmo torcedor murmurar:
_ Eu não disse...
O jogo continuou igual, com o Botafogo muito melhor. Mas no final do jogo, o Vasco cobrou uma falta que, após desviar na barreira, morreu no fundo da rede decretando a derrota do Botafogo. Ainda deu tempo de ouvir o mesmo torcedor resmungar:
_ Eu não disse...
Após esta partida fui assistir outra partida no Caio Martins, e o Botafogo não passou de um empate sem graça. Ali terminou minha aventura botafoguense, já que fui taxado de pé frio e azarento, além de ser impedido de continuar indo aos jogos pelo mesmo grande amigo.
Mas isso são coisas do passado. Embalado pelas boas campanhas que o time tem realizado nos diversos campeonatos que vem disputando atualmente, inclusive o Brasileirão 2007, o botafoguense deixou de ser pessimista. Diante da possibilidade real de se tornar campeão brasileiro – ainda mais que esse monótono campeonato não tem fase final, onde as faixas brancas do uniforme botafoguense costumam amarelar – o típico botafoguense, ainda supersticioso, trocou o seu pessimismo de outrora por um complexo de eterno prejudicado por tudo: pelo juiz, pelos deuses do futebol, por complôs sabe-se lá de quem, enfim, por tudo que possa servir de explicação para qualquer fracasso dentro das quatro linhas. Resumindo: o botafoguense de hoje é supersticioso e chorão.
Reparem, apenas focando os acontecimentos mais recentes, como o botafoguense se considera lesado na perda do último Campeonato Carioca e da última Copa do Brasil. É claro, houve um erro na marcação de um impedimento de Dodô, que realmente não existiu, no fim do jogo final do Estadual contra o Flamengo. Dodô poderia (ou não) acertar o chute e decretar a vantagem do Botafogo no placar, e haveria muito pouco tempo (minutos) para uma possível reação do Flamengo. Mas não foi só o erro alheio que determinou a derrota alvinegra: o que dizer das falhas dos dois arqueiros botafoguenses nos dois jogos das finais? O que dizer das inúmeras oportunidades claras de gol inacreditavelmente desperdiçadas pelos jogadores? E o que dizer da derrota para um time de menor expressão, o Boavista, um dos últimos colocados na classificação do campeonato carioca, quando bastava ao Botafogo um empate para colocá-lo na final do primeiro turno?
A derrota na Copa do Brasil não foi diferente. Mais uma vez houve erro na marcação do um impedimento, além da marcação de outro que dava margem a interpretações. Entretanto, é cruel creditar apenas a isso a desclassificação já que, novamente, uma falha do goleiro decretou um resultado insuficiente para a classificação do Botafogo. E se todo botafoguense reclama da arbitragem nesta partida, não vejo ninguém agradecer aos céus pela "gentileza" ocorrida no jogo anterior, onde a não marcação de um pênalti claríssimo contra o Botafogo, no fim da partida, permitiu que o mesmo avançasse na competição.
E o que o nosso parceiro botafoguense tem a dizer, ou diz, a respeito de dois títulos extremamente importantes para o Botafogo que foram alcançados por erros de arbitragem? Por que o botafoguense não fala do empurrão que o atacante Maurício do Botafogo deu em Leonardo, lateral do Flamengo, ficando livre para marcar o gol que deu o título de campeão estadual ao Botafogo em 1989, depois de mais de 20 anos de jejum? E o Campeonato Brasileiro de 95, conquistado pela excelente equipe do Botafogo, mas reconhecidamente auxiliada pela arbitragem que não anulou um gol em impedimento do Botafogo e anulou um gol legal do adversário (Santos) no fim do jogo, o que colocaria o adversário em vantagem faltando minutos para o encerramento da partida?
Tudo bem, o botafoguense é assim mesmo. E eu gosto do Botafogo. Mas bom senso, às vezes, não faz mal a ninguém. E achar que o mundo está contra você é um espécie de soberba ao inverso, já que não deixa de ser um tipo de crença na sua posição central em relação aos demais. E isso não combina com o Botafogo, o grande clube da estrela solitária e, com certeza, o mais supersticioso clube do Brasil.
Até a próxima!
Silvio Machado