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 Bola Quadrada    maio 19, 2012
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Gustavo Kuerten, o Guga, deu suas últimas raquetadas como profissional no domingo que passou, na quadra central de Roland Garros, seu torneio preferido, uma espécie de quintal de sua casa. Eu não vi o jogo. Eu não gosto de despedidas, daquela sensação que uma etapa da vida se encerrou. Quem viu, viu. Quem não viu, não verá mais. Mas a imagem de Guga na capa dos principais jornais do Brasil com aquele jeitão desengonçado, aquele cabelo volumoso e aquele mesmo uniforme de quando venceu Roland Garros pela primeira vez, me fizeram voltar no tempo e lembrar. Foi um feito incrível, realizado em alguma semana de 1997, o ano da primeira conquista em terras francesas.

Guga era um ilustre desconhecido, até mesmo da maioria dos brasileiros, uma nação pouca afeita ao tênis. Poucos deram bola para seu não tradicional uniforme, bem diferente da quase totalidade de monocromáticos que desfilavam pelas quadras francesas. Para os mais tradicionais, aquele cara logo logo seria eliminado. Mas não foi. De repente o garoto ‘maneiro’ eliminou a primeira fera, o especialista austríaco e já vencedor do torneio em outra ocasião, Thomas Muster. Depois foi a vez do igualmente genial e também vencedor Yevgeny Kafelnikov, um russo duríssimo de vencer. O país não teve como não começar a prestar certa atenção naquele catarinense, o tal de Ku-erten (ninguém pronunciava ‘Kirten’) e seu espalhafatoso uniforme.

Eu era estagiário e trabalhava no momento em que Guga jogova a semifinal contra o desconhecido Dewulf, uma zebra belga, como o brasileiro. Numa época em que a Internet engatinhava e os computadores eram apenas máquinas de datilografar mais ‘incrementadas’, a solução para acompanhar o jogo foi um radinho, um ‘walkman’ meio escondido na orelha, para o chefe não perceber. Eu não conhecia tênis, mas sabia que Roland Garros era algo importante no circuito. Eu só conseguia vibrava quando o locutor dizia ‘ponto de Guga’, pois sabia que isso era um espécie de gol. Após esse jogo, Guga ainda teve que bater outro especialista, o espanhol bicampeão do torneio Sergi Brugera, fechando uma conquista inacreditável de forma incontestável. Surgia um grande campeão.

Incrível imaginar que foram apenas 10 anos entre esta conquista e o dia de hoje, sua despedida. Eliminando talvez os últimos dois ou três anos em que Guga pouco jogou, ficamos com enxutos 7 anos de carreira. É pouco tempo, é uma carreira curtíssima. Mas foi o tempo suficiente para trazer o esporte para os brasileiros. Carismático, Guga popularizou o tênis, de uma forma que nenhum planejamento faria. Não há mais surpresas nos backhands, nos top spin, nas ‘deixadinhas’ (nem para mim, virei fera no assunto). Sabemos que os pontos do tênis são 15, 30 e 40. Mas até quando? Não houve evolução. Não há outro Guga. Não se aproveitou sua fenomenal passagem. Para o Brasil, quando Guga passar, o tênis voltará a ser como antes, um esporte desconhecido. Uma brincadeira de elite.

Para mim, fica mais a tristeza do que a alegria. É mais um ídolo que se vai. Assim como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Joaquim Cruz, Carlão, Marcelo Negrão, Magic Paula, Hortência, Oscar, Marcel, Aurélio Miguel, e tantos outros. Gente que veio, que fez, que foi e que não deixou rastro, não teve seu momento aproveitado para as próximas gerações. Ficou apenas a saudade.

O tênis mundial, não só o brasileiro perde uma grande figura. O jogo ficou mais chato. Mas Guga não tem nada a ver com isso. Só temos a agradecer tantas agradáveis manhãs de domingo embalada por conquistas. Agora, provavelmente, Guga só se for nas agradáveis praias de Floripa curtindo adoidado seu outro esporte, o surfe. A gente se vê lá.

Até a próxima semana!

Silvio Machado

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