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 Bola Quadrada    maio 19, 2012
Artigos publicados - BolaQuadrada Minimizar
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Diferente da bandeira, mas coerente com o uniforme, o Brasil foi mais amarelo que verde nas Olimpíadas de Pequim e volta para casa com bem menos do que imaginava, a princípio. Sim, tem-se pouco apoio dos órgãos governamentais, principalmente se comparado com as potências esportivas. Sim, nossa diferença, mesmo sem o tal apoio, é tecnicamente pequena, na grande maioria dos esportes. Mas não são grandes as diferenças que definem os grandes campeões. Na verdade são detalhes, pequenos detalhes. Milésimos de segundo, milímetros, uma batida de mão mais forte, um pequeno desequilíbrio na hora da verdade.  Puro controle.

Tá, é maldade simplesmente definir o perdedor como amarelão. Mas é um pensamento geral. Não é o meu, como regra, mas é certo que, entre os agraciados com o ouro, dois passaram pelo dissabor de não concretizar um favoritismo claro em competições anteriores. Maurren teve uma contusão em Sidney 2000. Já as meninas do vôlei feminino sofreram 4 anos com a fama de amarelas após a derrota inacreditável para a Rússia nas semifinais de Atenas em 2004. Foi uma longa jornada de volta ao topo, concluída com o ouro em Pequim. César Cielo é uma grata exceção.

O fato é que está na hora de apostar em um trabalho específico com o emocional dos atletas. Vale a pena mirar no próprio exemplo das meninas do vôlei que têm uma psicóloga na comissão técnica, após tantas falhas na hora H. E os exemplos de desequilíbrio na hora de decidir foram muitos ao longo de toda a Olimpíada. Pode se falar no judô, com seus três campeões mundiais que pouco fizeram em Pequim (ok, Thiago Camilo ainda trouxe o bronze). Pode se falar nas meninas do futebol feminino que jogaram como nunca e perderam como sempre (síndrome de Botafogo?). Pode-se falar da ginástica brasileira que, apesar da inédita participação na fase final por equipes ficou devendo com Diego, Jade e Daiane, essa pela segunda vez. Destaque para Jade, um exemplo notório de desconforto com a pressão por resultados, dona de um talento tão grande quanto seu descontrole emocional. O mesmo descontrole que parece afetar Ricardo ‘Bimba’, o velejador brasileiro que pela segunda vez consecutiva chegou a última regata com enormes chances de trazer uma medalha olímpica mas ficou a ver navios (com trocadilho por favor). Para fechar os exemplos não poderia deixar de falar de Jadel Gregório e também de Fabiana Murer, que de favorita foi logo eliminada, completamente desestabilizada por um erro cometido pela organização do evento. Explica mas não justifica. Murer prometeu nunca mais competir em Pequim. ‘Bimba’ atacou imprensa e torcida pela cobrança por medalhas. Jade deu graças a Deus pelo fim dos Jogos. Pane total.

Atletas do Brasil, só se cobra de quem se espera algo. E se esperamos algo de alguém é por que este alguém já deu provas de que pode chegar a algum lugar. Não se cobra de quem nada se espera. É o ônus que os atletas de alto desempenho têm que carregar. Assim é aqui e em qualquer lugar do mundo. Nos Estados Unidos, Austrália, Alemanha, China (já imaginaram a pressão de 1 bilhão de pessoas?).

O problema não é perder. O vôlei masculino, o quase imbatível esquadrão de Bernardinho, perdeu. É parte do esporte. Foi superado por um rival mais forte, que soube neutralizar o eficiente jogo brasileiro. O mesmo se aplica (95% não irá concordar comigo) ao futebol masculino que perdeu para uma equipe melhor, mais bem preparada, a Argentina (infelizmente). E temos outros exemplos como Thiago Pereira e Kaio Márcio na natação que, mesmo superando seus próprios limites, sucumbiram diante de atletas mais bem preparados, ou os atletas do 4x100 metros rasos brasileiro que chegaram na quarta colocação, tanto com a equipe masculina quanto com a feminina.

E que o exemplo de Vanderlei Cordeiro seja sempre mencionado aos atletas das próximas gerações. Liderando uma prova extremamente exigente como a maratona nas Olimpíadas de Atenas em 2004, com a maior parte da prova já transcorrida e com boa vantagem sobre o segundo colocado, Vanderlei teve sua trajetória bruscamente interrompida por um louco irlandês, sob os olhares incompetentes dos organizadores da prova, que nada conseguiram fazer diante de um fato tão absurdo. Liberado por pessoas comuns, Vanderlei retornou a prova e reunir forças sabe-se lá de onde (quem pratica maratona sabe o quanto é difícil retornar a prova após uma parada) para ainda chegar em terceiro e garantir a medalha de bronze. Vanderlei poderia parar e apenas lamentar os erros alheios pelo resto de sua vida. Mas ele preferiu continuar. Atitude de campeão. Atitude a ser sempre seguida.


Até a próxima semana!

Silvio Machado

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